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segunda-feira, 5 de maio de 2008

Dr. Ambedkar, o pai dos "intocáveis"


Pouco conhecido no Ocidente, o dr Ambedkar é adorado e reverenciado pelos "intocáveis" na Índia. Não há "intocável" que não tenha, em casa, uma fotografia sua, posta em lugar de honra. E não é pra menos: ele fundou o primeiro partido político de "intocáveis", presidiu a Assembléia Constituinte quando da independência da Índia, e foi o principal redator da nova constituição.

Ramji Ambedkar era um "intocável" também, fazia parte do contingente humano que os textos sagrados definem como "a poeira aos pés de Brahma", aqueles que nascem "impuros", não podem beber do mesmo poço que os integrantes das castas, nem tocá-los, mesmo com sua sombra.

Desafiando todas as probabilidades, conseguiu estudar, e através de bolsas, doutourar-se pela Universidade de Columbia e pela London School of Economics. Voltou à Índia em 1923, tornou-se líder dos "intocáveis" e, como Gandhi, mas através de propostas diferentes, lutou pela conquista de seus direitos políticos.

Um dos momentos mais célebres de suas campanhas foi quando, no final de um comício, depois de um discurso caloroso e apaixonado, queimou um exemplar das leis de Manu, código anterior a Cristo, que dispõe sobre as castas, determinando os direitos e deveres de cada uma delas.

A ruptura entre Ambedkar e Ghandi se deu através das soluções conflitantes que ambos apresentavam para a causa dos intocáveis. Ambedkar acreditava que só seria possível integra-los plenamente através da destruição do sistema de castas, o que implicava em separar a vida civil da vida religiosa. Certo de que nenhum candidato intocável venceria uma eleição aberta a todas as classes, propôs que os párias constituissem um eleitorado à parte: na disputa por um cargo público, intocáveis seriam eleitos por intocáveis. Desse modo, eles teriam sempre representatividade garantida no governo indiano.

Gandhi sentiu o hinduísmo ameaçado, e se opôs tenazmente à idéia, acreditando que a integração dos intocáveis não necessitava de soluções laicas para tornar-se real. Podia ser feita sem necessidade de ferir os princípios do hinduísmo. Ele próprio fundou um ashram (templo) que compartilhou com intocáveis, e chegou a adotar, como filha, uma menina intocável.

Quando os britânicos ameaçaram ceder às reinvindicações de Ambedkar, ele protestou, com uma greve de fome que acabou fazendo o lider dos intocáveis recuar. Decepcionado, Ambedkar tentou outra estratégia: liderou um movimento de conversão em massa dos párias ao budismo. de modo a livra-los das restrições impostas pelo sistema de castas. Mas morreu antes que a nova iniciativa desse frutos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Ganesh: o deus da sorte e da prosperidade


O alegre e guloso lord Ganesh é um dos deuses mais queridos e populares do hinduísmo: abre os caminhos, afasta obstáculos, protege as casas, é o senhor do raciocínio prático, da inteligência, do aprendizado, do bom senso e da força.


O sucesso de qualquer emprendimento está associado a ele. Assim, sempre o invocam no início de eventos importante: uma viagem, um casamento, a construção de uma casa e, segundo li, quando se começa a escrever um livro ou até mesmo uma carta.


Toda casa indiana tem seu Ganesh pendurado na porta. E aqui mesmo, já o vi várias vezes, representado naquela fileira de elefantes com guizos que muita gente usa como decoração.


Ganesh nasceu só de sua mãe, Parvati, que era casada com Shiva. Reza a lenda que Shiva passava muito tempo meditando nas montanhas do Himalaia, e um dia, enquanto estava fora, Parvati moldou um filho, com a pasta que o marido usava para tomava banho. E deu-lhe vida.


Ganesh cresceu e sua mãe o mandava ficar tomando conta da porta, para que ninguém a surpreendesse enquanto se banhava. Um dia Shiva voltou, e Ganesh, que não o conhecia, barrou-lhe a passagem. Shiva lutou com ele e cortou-lhe a cabeça com seu tridente.


Parvati desesperou-se e exigiu que o marido lhe devolvesse o filho. Os comandados de Shiva recolheram o corpo do menino, mas ninguém conseguia achar a cabeça. Então, Shiva ordenou que lhe trouxessem a cabeça do primeiro ser vivo que encontrassem, na direção do norte.


Eles encontraram um elefante. Shiva botou a cabeça do elefante no corpo do menino e Ganesh voltou a viver.


Vejam a animação que toma conta dos indianos nas festas de lord Ganesh. É bonito ver como eles celebram seus deuses com alegria. As procissões coloridas ganham as ruas, as crianças tiram fotos abraçadas ao deus, o povo dança ao som dos tambores. Encontrei um video que mostra um pouco o geral dessa festa e posto aqui pra vocês:

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Até quando?

É terrível imaginar que enquanto estou diante do computador, passeando na internet, escrevendo um blog, ouvindo a buzina dos carros que passam lá fora, e as vozes das madrugadas de copacabana, que chegam até aqui, mais de 700 pessoas, reduzidas à condição de escravos, estão acorrentadas pelo pescoço, amarradas em árvores, sendo submetidas a toda a sorte de humilhações e torturas. 

Não tem como não voltar ao assunto A carta do coronel Mendieta, sequestrado há 9 anos, que acabei de ler num jornal da Colômbia, descrevendo as condições desumanas a que estão submetidos os prisioneiros, dói nos nervos da gente!

Impossível que diante dessas denúncias não se tome uma providência para liquidar de vez essa organização criminosa!
 Hoje o presidente Uribe fez uma conclamação a todos os países pedindo o isolamento das FARC. Considera que essa seja a única maneira de esvaziar e vencer a facção. 

A foto é do Jornal El Colombiano. Retrata o protesto que aconteceu em Bogotá, diante da embaixada da Venezuela.

Leia AQUI o texto integral da carta do coronel

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Final Feliz



Tudo indica que o pequeno Emmanuel vai se ajustar sem traumas à família!
Emocionante esse abraço. E as autoridades colombianas foram sensíveis,ao
permitir que Clara vivesse esse momento tão íntimo longe dos refletores da mídia.

Também achei a imprensa sensível, por não ficar especulando se a relação com o guerrilheiro, pai da criança, foi consentida ou não. Ainda que não tenha sido, Clara faz bem em fugir dessas explicações: o menino Emmanuel já sofreu o suficiente, concordam?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Enfim, livres!



entrevista com Clara Rojas

mãe de Clara Rojas fala sobre a expectativa de rever a filha

COMPLEMENTO

Só faltava essa: Hugo Chavez pede que as FARC sejam retiradas da lista de terroristas! Como assim????

Não há situação mais cruel e humilhante para um ser humano do que o sequestro! centenas de pessoas apartadas de suas famílias, de suas vidas, muitas delas, como denuncia hoje uma das libertadas, a deputada Consuelo, mantidas acorrentadas e dormindo amarradas à árvores.
Se isso não é terrorismo, terrorismo mudou de nome!

emocionante o reencontro das reféns com suas vidas. Emocionante e doloroso. Toda a violência cometida contra elas está aí, bem à mostra, nos sorrisos e nas lágrimas de reencontro!


sábado, 15 de dezembro de 2007

dura lex sed lex: Sentença Judicial de 1833


Mais uma do meu arquivo. É uma sentença proferida pelo juiz  da província de Sergipe, num caso de tentativa de estupro. Como diria dona Jura -né brinquedo não! 

O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazera lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará.
Elle não conseguiu matrimônio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágiodo sucesso faz prova.

CONSIDERO

que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana; que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas; que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens.

CONDENO

o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa. Nomeio carrasco o carcereiro.
Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos Juiz de Direito

Vila de Porto da Folha (Sergipe) 15 de outubro de 1833

Fonte: Instituto Histórico de Alagoas
                
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

As memórias do coronel Fittipaldi

Estou voltando de Brasilia. Fui para o lançamento do livro do coronel, do seu Hernani, do pai da Lucinha, minha amiga-irmã, companheira de toda a adolescência.  

Fizemos o clássico no Elefante Branco, íamos juntas aos sábados do Yate Clube, às domingueiras do Congressinho, e os finais de semana eram na casa que seu Hernani e dona Eunice tinham construído no lago, que naquele início dos anos 60 ainda estava quase desabitado.

Seu Hernani, gaúcho de Uruguaiana, despois de ter sido piloto e ajudante de ordens de Getúlio Vargas, foi para Brasilia levado por Juscelino: na época, era o único profisional que dirigia helicóptero na América do Sul, e o uso do helicóptero era essencial numa cidade que estava sendo construída, ainda sem ruas, onde só se podia chegar aos lugares pelo ar.

A convivência com Vargas é o assunto desse primeiro livro de memórias. Digo primeiro, porque o coronel ainda tem muito a contar. Foi testemunha e personagem de fatos históricos, durante o período Vargas, Juscelino e Joao Goulart. 

Foi ele quem tirou Jango de Brasilia e levou para o Uruguai, quando do golpe militar de 64. É claro que o prenderam na volta, assim que aterrisou.  E é claro também que o feito fez do coronel o nosso herói preferido, naqueles dias em que a ditatura se instaurava.

Além da importância histórica, o livro é delicioso de ler. 


terça-feira, 27 de novembro de 2007

o enigma dos geoglifos do Acre


Faz tempo que estou querendo falar dos geoglifos. O desmatamento no Acre tem revelado uma enorme quantidade deles. Vejam como as formas geométricas parecem ter sido desenhadas a régua e compasso.

Ainda não se sabe com certeza quando surgiram, mas segundo a teoria mais aceita, seriam anteriores ao aparecimento da floresta, que tem por volta de 13 mil anos, e se formou no final da idade do gelo.


Até então nós sempre pensamos que aquela região, ocupada pela floresta, não havia sido habitada antes por nenhuma sociedade humana, mas os geoglifos parecem indicar o contrário: eles apontam para a possibilidade de ter existido, ali, uma grande civilização.

O assunto mobiliza pesquisadores do mundo inteiro, que tem visitado o Acre para estudar a descoberta. Até agora já foram encontrados mais de cem desses geoglifos. O resto é mistério que ainda nos cabe decifrar.

obs. as fotografias são de Sergio Valle.

domingo, 4 de novembro de 2007

Tutankamon e a maldição do faraó


Sempre tive grande fascínio pelo Egito antigo, especialmente por tudo o que diz respeito a Tutankamon. Ainda garota, no Acre, lia com ávido interesse os livros do meu pai sobre a expedição de Carter, que descobriu o túmulo do faraó em 1922. 

A história era cercada de mistérios: havia a célebre inscrição que lacrava o último esquife, aquele que as deusas abraçam em círculo:

as asas da morte se abaterão sobre todo aquele que ousar perturbar o sono do faraó.

Coincidentemente, vários membros da expedição tiveram morte misteriosa num curto espaço de tempo. Assim nasceu a lenda da maldição do faraó, e muita gente, ainda hoje, se impressiona com ela, ainda que Carter tenha morrido só muitos anos depois, de causas naturais, e ainda que se possa imaginar o efeito que devem ter tido, sobre os participantes da expedição, os gases acumulados dentro daquela tumba durante os milhares de anos em que ela permaneceu intocada.

Uma das grandes emoções que vivi no museu do Cairo, foi ver de perto a máscara mortuária de Tutankhamon, (que agora foi aberta para que a múmia do faraó pudesse ser preservada com os cuidados devidos), os tesouros, as joias, o belíssimo mobiliário, os objetos deixados no seu túmulo para que ele não sentisse falta de nada quando sua alma retornasse ao corpo.

Tinham acabado de inaugurar a sala das múmias, essa mesma onde, suponho,  vá ficar Tutankamon. É uma sala pequena, onde só entram cinco ou seis pessoas de cada vez. As múmias estão protegidas em caixas de vidro e não podem ser fotografadas. Entre elas, a de Ramses II.

Um fato me chamou a atenção: as múmias dos homens estavam todas de olhos fechados, e as das mulheres de olhos abertos. Puro acaso? nao sei. Deve ter um sentido, mas nunca li sobre isso nem encontrei quem me desse resposta. Os antigos egipcios tinham lá suas crenças.

Estavam certos da imortalidade da alma: um dia a alma voltaria para se unir ao corpo, e era por isso que ele precisava ser preservado. Caso contrário, a alma não teria para onde voltar. Mesmo assim, o direito à vida futura dependia do resultado de um julgamento. O morto comparecia ao Tribunal de Osiris, e ali fazia uma declaração de inocência (não de culpa, como na religião católica). Osiris, então, colocava num prato de sua balança o coração do morto (sede de sua vontade) e, no outro, a pena de avestruz (simbolo da verdade, da justiça e da retidão de caráter). Depois pedia ao coração que testemunhasse. E assim avaliava o peso daquela alma, para que pudesse proferir sua sentença

Em muitos túmulos foram encontrados amuletos com fórmulas para impedir que o coração do morto testemunhasse contra ele, e o impedisse, assim, de ganhar a vida eterna.

É bonita demais essa mitologia.
obs. as imagens foram tiradas da internet

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Carlota Joaquina, enfim humanizada!


Carlota Joaquina como Maria Antonieta, é dessas personagens que acabam virando caricatura: leviana, vulgar, depravada, intrigante, ninfomaníaca, o que ficou para nós foi o registro de suas infidelidades e extravagâncias.

É verdade que a princesa não foi nenhum modelo de fidelidade, como também é verdade que cometeu muitas extravagâncias. Mas a imagem tão completamente negativa, deveu-se mais ao empenho de seus detratores do que às suas próprias transgressões. 

Nos livros de História, os capítulos dedicados a ela se limitam a contar passagens que ilustram e reforçam o caricato:a célebre noite de núpcias, quando teria partido a cabeça de D. João com um golpe de candelabro, a humilhação a que submeteu o embaixador inglês, obrigando-o a descer da carruagem e ajoelhar-se na rua, a seus pés, a conspiração contra o marido e os muitos envolvimentos amorosos, inclusive com escravos.

Mas Carlota Joaquina não era só isso. Independente, preparada, tinha cultura incomum para as mulheres da época.

É esse resgate que a historiadora Francisca Nogueira de Azevedo faz no livro que acaba de lançar: Carlota Joaquina - Cartas Inéditas. São cento e muitas cartas familiares e políticas, que revelam os aspectos da personalidade e da inteligencia de Carlota, que os cronistas de seu tempo calaram.

Cartas que a humanizam, enfim.

Aliás -e também já em tempo- os franceses estão resgatando Maria Antonieta.