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sábado, 5 de abril de 2008

País dos contrastes

Na Índia, o que mais impressiona é a convivência do milenar com o extremamente novo. A tensão permanente entre o antigo e o moderno.

Não é à toa que, em hindi, existe uma única palavra para dois significados que, para nós, são opostos: "Kal" quer dizer "ontem". E quer dizer também "amanhã".

É exatamente essa a sensação que a Índia deixa na gente: a de ter entrado numa dimensão diferente, onde o ontem e o amanhã se confundem.

Pois é. A Índia chega ao século XXI como uma potência. Tem um programa nuclear altamente desenvolvido, é referência na área de tecnologia, desenvolvimento de softwares, call centers, é o quarto maior fabricante de medicamentos do mundo e as previsões fundamentadas em seu ritmo de seu crescimento indicam que em 2035 será a terceira maior economia, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

Tornou-se também, com sua Bollywood, a maior produtora de filmes do planeta, e é a número 1 em bilheteria, com uma média de 150 milhões de espectadores por semana.

Ao mesmo tempo, é imenso o contingente de miseráveis, o país tem 18 línguas oficiais, e religiões conflitantes.

No campo da Justiça essa complexidade fica explícita na convivência do Direito estatal com o Direito religioso, que tem seus fundamentos no Código de Manu, elaborado por volta de 1500 AC, e que é representada por "assembléias" dentro de cada casta e subcasta.

O sistema de castas, ainda que erradicado pela lei, continua a vigorar nos costumes, e as regras que cada uma delas deve seguir, ainda valem hoje para os seguidores do hinduísmo, como valiam na época de Manu.

No encontro com os brasileiros na Índia, uma das observações mais constantes foi a necessidade de se ter, em casa, vários empregados: aquele que é responsável pela arrumação, por exemplo, se recusa a lavar o banheiro, porque isto é função de um "intocável".

Recentemente, uma das maiores estrelas de Bollywood, Aishwarya Bachchan, casou-se com uma árvore, depois que o astrólogo previu que seu primeiro casamento não seria bem sucedido. Assim, liberta do mau agouro, pôde casar-se tranquilamente com o noivo!

Increadible India!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Parabéns, Padilha!


Tropa de Elite é ouro no festival de Berlim -e por unanimidade! Mais do que merecido. Porque como filme é irrepreensivel, e porque significa uma quebra nessa espécie de tradição que aprisiona e empobrece o nosso cinema: o compromisso com defender teses sociológicas!


Quando fez o documentário sobre o assalto ao ônibus 174, Padilha foi aplaudido. O filme era mesmo excelente, mas pelo que se viu quando do lançamento de Tropa de Elite, os aplausos de muitos críticos não eram bem para o filme, mas para o ponto de vista: o do assaltante.


Fugindo dos estereótipos, o cineasta não se deteve naquele instante em que o bandido aterrorizava as pessoas que mantinha sequestradas dentro do ônibus. O documentário tratou de resgatar a humanidade daquele indivíduo que, fotografado naquele momento, era apenas um monstro. Como se fabrica alguém capaz de uma monstruosidade dessa? era a pergunta que o documentário buscou responder, reconstituindo a trajetória do bandido.


Ao abordar a violência sob o ponto de vista do policial, dentro desse mesmo modelo, foi o que se viu! a humanidade do capitão Nascimento soou como agressão, como se a polícia não fosse, também, constituída por gente!


Sempre achei que a indignação de muitos contra Tropa de Elite tinha muito mais a ver com esse resgate da humanidade do policial que se corrompe e tortura, do que com a tortura propriamente dita! Porque afinal de contas, o traficante do filme, que mete uma bala na cabeça da menina e queima o rapaz no pneu, não foi citado por nenhum dos acusadores como exemplo de torturador também. Muito menos o bandido do ônibus 174, que torturou durante muitas horas os seus sequestrados, diante das câmeras de TV.


Gostar do Poderoso Chefão pode, gostar de Tony Soprano pode também, mas gostar do capitão Nascimento é heresia????

Parabéns, Padilha! pelo Urso de Ouro e por ter quebrado o tabu!

COMPLEMENTANDO

Há que saber separar o filme da reação da platéia que hoje aplaude todo e qualquer procedimento que pareça capaz de libertar a população do domínio da bandidagem.

Essa reação é fruto da realidade que temos vivido, não do filme. O filme só revela a que ponto chegamos, em consequência da indiferença dos poderes públicos, da ausência de uma política eficaz de combate à violência.

Como dizia Borjalo, culpar o filme é querer culpar a janela pela paisagem!

sábado, 26 de janeiro de 2008

Bollywood: a Hollywood da India

Sim, a India tem uma vigorosa indústria cinematográfica, que apaixona o país e começa a ganhar mundo. Andei vendo que eles produzem cerca de mil filmes por ano, e a média diária de espectadores em sala é de 30 milhões! coisa à beça!

É um cinema absolutamente popular, em sintonia com a visão de mundo, os hábitos, os costumes e a estética indiana, de modo que todas as castas se reconhecem ali.

Filme de autor existe também, claro, mas ao contrário do modelo brasileiro, não é a base da indústria. Li que o sistema de financiamento também é diferente: não existe patrocínio. Os filmes se pagam com empréstimos em bancos, tomados a juros muito baixos.

E aqui vai uma amostra de Bollywood: o trailer de um filme de Pankaj Sharma, um desenho animado sobre o mito de Ganesh, divindade simpática e muito popular, o deus da boa sorte, do sucesso e da prosperidade.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Novas mídias, novos talentos

                   Uma das inovações mais bonitas e bem-vindas da internet é essa de dar às pessoas a possibilidade de chegar ao público exibindo um trabalho ou um talento, sem mais depender de encontrar alguém que faça isso por elas.

                 O YouTube está aí, revelando muita gente boa nas mais diversas áreas. E o primeiro concurso de curtas promovido pelo site foi vencido por brasileiras, que disputaram com 3.600 concorrentes de várias partes do mundo: "Laços", de Flavia Lacerda e Clarice Falcão levou o prêmio de 5 mil dólares, mais um espaço no festival de Sundance.

                Parabens, meninas! e vamos torcer por vocês!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Morte em Veneza: o drama na vida real

Quem não se lembra do Tadzio, de Morte em Veneza? o adolescente que encarnou o ideal de beleza que apaixona, confunde  e leva à morte o músico  Aschenbach?

É irônico, mas na vida real, o destruído mesmo pela beleza de Tadzio foi seu intérprete, o menino sueco Bjorn Andrésen, que tinha só 14 anos quando fez o filme que o transformou em objeto de desejo no mundo inteiro.

Quando Visconti o escolheu ele estudava música, morava com o padrasto e tinha, naturalmente, expectativas muito mais modestas na vida.  Depois de Morte em Veneza tentou seguir a carreira de ator, lançou-se como cantor, mas não teve nenhum sucesso: havia-se tornado prisioneiro de Tadzio.

Há casos assim, em que a personagem aprisiona o intérprete, torna-se uma camisa de força que o impede de seguir adiante.  Bjorn conta que não importava o que ele quizesse mostrar: todas as platéias só esperavam e queriam ver "o menino mais bonito do mundo", que Visconti havia imortalizado.

Estava lendo uma entrevista dele, de 2005, quando completou 50 anos. Bjorn não tem boas lembranças daquela época, muito menos do filme.  Está certo de que teria sido mais feliz se não o tivesse feito, e confessa que se sentiu traído por Visconti, porque filmou sem ter nenhuma noção da temática homossexual de Morte em Veneza, que o perturbou a ponto de interferir em sua sexualidade.

Acaba a entrevista  com uma frase amarga, mas bem verdadeira: 

-Todos procuram o menino mais bonito do mundo e só encontram o menino mais velho do mundo
Aqui está ele, aos 52 anos:

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Ídolos: lá e cá


Os roteiristas americanos estão em greve, mas segundo noticia o El Mundo, vão dar uma trégua, em respeito e homenagem a Elizabeth Taylor.

A atriz, uma das grandes divas do cinema, há anos se recolheu e quase não aparece em público. Mas nesse 1 de dezembro, dia Internacional da Aids, vai fazer uma apresentação milionária, e a renda obtida será destinada à luta contra o vírus. Solidários, os roteiristas já se comprometeram a não fazer piquetes na porta do teatro.

Bonito esse respeito, essa reverência que o norte-americano tem para com seus ídolos. Eles envelhecem, saem de cena, mas não caem no esquecimento: continuam sendo tratados como ídolos, inclusive pelos mais jovens, que nem tinham nascido quando estavam no apogeu.

Nós temos outra cultura. Entre nós, sair de cena é sair da memória também. Quantas vezes a gente escuta alguém dizer: "fulano acabou." O "acabou", no caso, significa: envelheceu, não atua mais, não dança mais, não joga mais futebol,  não está mais nas páginas das revistas.  Há um certo prazer em derrubar ídolos. 

Se Elizabeth Taylor fosse brasileira será que ela conseguiria fazer uma apresentação milionária?  a greve faria essa trégua?

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

TROPA DE ELITE 2

sexta-feira, 5 de outubro de 2007


Impressionante o massacre que vem sofrendo o Padilha por ter ousado mostrar a violencia no Rio de Janeiro de um ponto de vista diferente daquele em que habitualmente é mostrada.

O proprio cineasta, no filme anterior, sobre a tragédia do ônibus 174, contou o episódio do ponto de vista do assaltante, apesar do sequestro ter resultado na morte de uma moça inocente. Ninguém achou que ele estava fazendo a apologia do sequestro! e não estava, é claro.

O fato de voltar a falar da violência, agora do ponto de vista da polícia, revela a preocupação com o tema, o empenho em compreender o que está acontecendo conosco: escrever é uma maneira de refletir sobre um assunto. Fazer filmes também.

Ontem, no noticiário da BandNews, ouvi o relato de um morador do Engenho Novo atingido por um tiro disparado por traficantes. Segundo contava, os traficantes costumam disparar a esmo, atingindo moradores. O homem não podia mostrar o rosto, claro, ou seria executado, como todos sabemos. Enquanto a câmera focalizava o buraco feito pela bala em seu corpo, ele, com voz embargada, pedia socorro ao coronel Ubiratan, chefe da polícia aqui no Rio de Janeiro, dizendo -eu sou o seu vizinho coronel, pelo amor de Deus, faça alguma coisa.

Não admira que o filme seja aplaudido por uma platéia que está pedindo socorro. E por plateia entenda-se não só aquela que assistiu o lançamento oficial, mas a que comprou a versão pirata nos camelôs. Trocando em miúdos: gente de todas as classes.

O que deveria estar em discussão é porque essa platéia composta por brasileiros ontem “cordiais”, reage como está reagindo às cenas de tortura praticada por policiais.

Seria um ótimo assunto para um terceiro filme.Tomara que o patrulhamento que Padilha vem sofrendo não o impeça de realiza-lo.

Quem dera que a violencia presente no nosso cotidiano despertasse a mesma exaltação, a mesma indignação que o filme vem despertando.

A impressão que fica é a de que vivemos num país onde a realidade pouco importa, contanto que a ficção esteja politicamente correta!

TROPA DE ELITE

quarta-feira, 26 de setembro de 2007


De volta, encontro uma nova polêmica envolvendo o filme: a reação eufórica das platéias às cenas de tortura e morte. Nenhuma surprêsa, pra quem prestou atenção ao fato de que o BOPE tenha sido aplaudido no desfile de 7 de setembro.

O que foi que mudou? durante muito tempo cultivou-se no Brasil uma verdadeira ojeriza à polícia. Qualquer tipo de repressão era identificado àqueles anos de ditadura que nunca mais queríamos ver pela frente. Ao mesmo tempo, a tendência era vitimizar os bandidos, encontrando sempre uma explicação sociológica para suas ações. O culpado mesmo era “o sistema”.

Ora, uma coisa é repressão à livre expressão, e outra bem diferente é repressão ao crime. Confundir essas estações ajudou um bocado a chegar onde chegamos.

A indiferença do estado, a cultura da impunidade, o sentimento de desamparo, a falta de confiança nas instituições, esse clima de salve-se quem puder, acaba mesmo embrutecendo as pessoas.

O filme, como filme, é primoroso. E foi mais do que oportuno mostrar o ponto de vista da polícia, concordemos ou não concordemos com ele.

Como será importante mostrar o ponto de vista da população honesta que, no morro como no asfalto, vive aterrorizada, com medo de parar num sinal de trânsito, de tomar um ônibus, ou de simplesmente andar na rua e ser atingida por uma bala -perdida ou dirigida a si.

A reação feroz das platéias é um grito de alerta e tomara que seja ouvido enquanto ainda é tempo.

SEX AND THE CITY

domingo, 23 de setembro de 2007


Ontem estavam gravando o filme aqui pertinho do hotel. Passei por lá sem a máquina: perdi a foto. Era uma cena com Carrie e Mr Big.

O seriado foi ótimo. Divertido, comovente, um retrato bem real do universo feminino. Fico pensando em como faz falta, entre nós, filmes ou séries que retratem assim, de uma maneira simples, o cotidiano das pessoas comuns.

Bem ou mal, esse registro tem sido feito, até agora, pelas novelas.O assunto rende, e a gente volta a falar sobre isso. Fica a provocação.

Sessão Nostalgia

segunda-feira, 20 de agosto de 2007


Encontrei essa preciosidade.Quem viveu os anos 50 e 60 com certeza chorou no cinema com Marcelino (Pablito Calvo), o orfãozinho criado pelos monges que ofereceu pão e vinho a uma imagem de Cristo e se tornou amigo do cruxificado.

Eu era criança quando vi e lembro que ficava horas olhando um cristo na cruz, na esperança de que ele falasse comigo, como falou com Marcelino.

Tem dias que o DVD está aqui, na minha estante. Estou como que me preparando pra rever. Seja qual for a impressão que ele me cause hoje, Marcelino tem sabor de recherche du temps perdu para quem já se emocionou com ele.

O filme recebeu menção honrosa no festival de Cannes e ganhou o Urso de Prata em Berlim.

Fui atrás de saber por onde andava Pablito Calvo (Pablo Calvo Hidalgo): ele deixou o cinema na adolescencia e morreu com 51 anos, no ano 2000.