quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Ganesh: o deus da sorte e da prosperidade


O alegre e guloso lord Ganesh é um dos deuses mais queridos e populares do hinduísmo: abre os caminhos, afasta obstáculos, protege as casas, é o senhor do raciocínio prático, da inteligência, do aprendizado, do bom senso e da força.


O sucesso de qualquer emprendimento está associado a ele. Assim, sempre o invocam no início de eventos importante: uma viagem, um casamento, a construção de uma casa e, segundo li, quando se começa a escrever um livro ou até mesmo uma carta.


Toda casa indiana tem seu Ganesh pendurado na porta. E aqui mesmo, já o vi várias vezes, representado naquela fileira de elefantes com guizos que muita gente usa como decoração.


Ganesh nasceu só de sua mãe, Parvati, que era casada com Shiva. Reza a lenda que Shiva passava muito tempo meditando nas montanhas do Himalaia, e um dia, enquanto estava fora, Parvati moldou um filho, com a pasta que o marido usava para tomava banho. E deu-lhe vida.


Ganesh cresceu e sua mãe o mandava ficar tomando conta da porta, para que ninguém a surpreendesse enquanto se banhava. Um dia Shiva voltou, e Ganesh, que não o conhecia, barrou-lhe a passagem. Shiva lutou com ele e cortou-lhe a cabeça com seu tridente.


Parvati desesperou-se e exigiu que o marido lhe devolvesse o filho. Os comandados de Shiva recolheram o corpo do menino, mas ninguém conseguia achar a cabeça. Então, Shiva ordenou que lhe trouxessem a cabeça do primeiro ser vivo que encontrassem, na direção do norte.


Eles encontraram um elefante. Shiva botou a cabeça do elefante no corpo do menino e Ganesh voltou a viver.


Vejam a animação que toma conta dos indianos nas festas de lord Ganesh. É bonito ver como eles celebram seus deuses com alegria. As procissões coloridas ganham as ruas, as crianças tiram fotos abraçadas ao deus, o povo dança ao som dos tambores. Encontrei um video que mostra um pouco o geral dessa festa e posto aqui pra vocês:

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

João Helio


Hoje foram julgados os assassinos do João Helio, aquele menino lindo, de 6 anos de idade, que os criminosos que roubaram o carro onde ele voltava com a mãe de um culto religioso,  não tiveram paciência de deixar que ela o soltasse do cinto de segurança, e o arrastaram por 7 kilômetros,  indiferentes aos gritos e aos avisos de motoristas e pedestres. 

As penas parecem altas -44, 39, 30 anos-  mas quando aplicada a elas a matemática da justiça brasileira, conclui-se que a barbaridade cometida contra essa criança e contra essa familia, vai dar em quase nada:

todas as penas foram superiores a 30 anos, o que garante aos criminosos o direito a um segundo julgamento.  Basta que tenham advogado para requerer o benefício. Até que se chegue ao segundo julgamento, os assassinos vão ter direito a responder em liberdade.

E mesmo que as sentenças sejam confirmadas, a lei não permite que ninguém fique preso mais de 30 anos. Logo, 1/6 da pena cumprida, todos já terão direito aos benefícios: prisão semi-aberta, condicionais, etc etc etc. 

É o que vale uma vida humana entre nós: 5 anos de cadeia! é o que vale, para o estado brasileiro a vida de João Helio, a dor da Rosa e do Elson. Não é a toa que os bandidos estejam achando barato!

sábado, 26 de janeiro de 2008

Bollywood: a Hollywood da India

Sim, a India tem uma vigorosa indústria cinematográfica, que apaixona o país e começa a ganhar mundo. Andei vendo que eles produzem cerca de mil filmes por ano, e a média diária de espectadores em sala é de 30 milhões! coisa à beça!

É um cinema absolutamente popular, em sintonia com a visão de mundo, os hábitos, os costumes e a estética indiana, de modo que todas as castas se reconhecem ali.

Filme de autor existe também, claro, mas ao contrário do modelo brasileiro, não é a base da indústria. Li que o sistema de financiamento também é diferente: não existe patrocínio. Os filmes se pagam com empréstimos em bancos, tomados a juros muito baixos.

E aqui vai uma amostra de Bollywood: o trailer de um filme de Pankaj Sharma, um desenho animado sobre o mito de Ganesh, divindade simpática e muito popular, o deus da boa sorte, do sucesso e da prosperidade.

casamentos à indiana

Pouco tempo atrás, todo mundo viu nos telejornais a notícia do casamento do indiano Kumar com a cadelinha Selvi, no templo de Ganesh, em Manamadurai Os noticiários mostravam a cena sublinhando o bizarro, mas não explicavam seu significado dentro da cultura indiana.

Andei pesquisando o assunto e encontrei coisas muito interessantes -aliás, quanto mais a gente mergulha na cultura da Índia mais coisas interessantes encontra. E olha que ainda nem pisei lá.

Aprendi que o casamento de humanos com cachorros é uma herança tribal, e tem uma função: proteger a pessoa, afastar algum mal que esteja presente, ou que possa vir a estar presente em sua vida

No caso de Kumar, quando tinha 18 anos, ele sacrificou dois cachorros com requintes de crueldade. Hoje, depois de um derrame, tornou-se deficiente físico, e atribui tudo o que lhe aconteceu de ruim à maldição que o acompanha em consequência da crueldade praticada contra os dois animais. Um astrólogo foi consultado e recomendou o casamento como expiação necessária para o alívio de seu karma

No caso da menina Karmoni Hasda, de 9 anos de idade, que também se casou com um cachorro, a motivação foi outra. Sandra Bose conta no Indiagestão:

Vocês já sabem que 99% dos casamentos na Índia são arranjados. Antes de se casarem, os pais dos noivos vão a um “astrólogo” que dirá se o casal é compatível ou não.
No caso dessa menina de 9 anos, o “astrólogo” disse que seu primeiro marido iria morrer logo, então casaram-na com um cachorro, assim o cachorro morre e a garota pode então casar-se com um ser humano.
Não se esqueçam que casamento de viuva ainda é um grande tabu aqui, mas se a viuva for de um cachorro, então, sem problemas!


Outro caso é o do menino Samir Mudiya, de 5 anos, também casado com um cão, como se vê na foto. O casamento, segundo o sacerdote que o realizou, terá o poder de salvaguarda-lo de todo o mal.
Voltando ao Indiagestão, também aprendi com a Sandra que, segundo a tradição local, se o primeiro dente de uma criança sai na gengiva superior, ela corre um grave perigo que só pode ser evitado pelo matrimônio com o melhor amigo do homem.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Mais Índia: Eunucos


Ainda não sei muito sobre hijras, palavra que, na India, significa "nem homem nem mulher", mas o assunto é tão fascinante que não consigo deixar de compartilhar com vocês o pouco que já pesquisei a respeito:

Eu acreditava que os eunucos tinham ficado no passado, no tempo em que eram castrados para tomar conta dos haréns sem oferecer risco de envolvimento sexual com as mulheres do sultão. Que nada! eles continuam a existir na Índia, e formam até uma casta, a dos hijras.

Ainda não encontrei informações suficientes sobre a origem deles: os indianos acreditam que sequestram crianças para castra-las, mas o que está comprovado mesmo é que pais de hemafroditas costumam entregar a eles os filhos que rejeitam. Também fazem parte do grupo os travestis operados.

Os hijras tem seus templos, sua deusa, e cumprem rituais que celebram a passagem do corpo masculino para o feminino. A mesma sociedade que os despreza, ridiculariza e marginaliza, lhes confere poderes excepcionais: eles tem o dom de abençoar e trazer sorte aos récem nascidos e récem casados. Na crença popular esse poder vem do amor que acumulam dentro de si, porque não podendo constituir família, nao tem a quem dedica-lo.

Assim, são convidados para as festas ou entram de penetras, para dar sua benção, cantar, dançar e recolher dinheiro dos convidados, em troca de garantir o sossego local. Negar dinheiro a um hijra é um risco terrível, porque eles  nascem também com o poder de amaldiçoar. 


O interessante é que, aos poucos, os hijras vão conseguindo conquistar seu espaço nessa sociedade tão fechada como é a indiana: alguns deles já ocupam cargos públicos, e muitos estão sendo contratados por financeiras para executar cobranças: costumam ir em dupla, e os devedores, atemorizados com os escândalos que eles são capazes de promover, acabam pagando rapidamente o que devem!

 Increadible India!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Do Blog da Sandra Bose: Barriga de Aluguel


Encontrei a notícia no blog da Sandra Bose Indiagestão, que é uma exelente fonte para quem quer saber mais sobre a Índia. 

Me impressiona, porque escrevi uma novela sobre o assunto, Barriga de Aluguel,  e sei o quanto de sentimentos contraditórios uma experiência como essa envolve. 

Reproduzo para vocês o artigo da Sandra: 

FICAR GRÁVIDA VIROU EMPREGO NA ÍNDIA

O jornal USA Today fez uma reportagem sobre um emprego cada vez mais requisitado na Índia, a barriga de aluguel. Desde 2002 esta prática é legal no país, assim como em vários outros como os Estados Unidos, mas o que leva casais do mundo todo a procurar estas mulheres é o baixo custo. Enquanto uma americana gastou com a fertilização in vitro na Califórnia cerca de 200 mil dólares e ainda precisaria pagar mais US$ 80 mil para alugar uma barriga por lá, ela pagou apenas 20 mil pelo procedimento na Índia. Deste valor a mãe de aluguel recebeu somente US$ 4.500.

Na Índia este procedimento está muito industrial, com clínicas batalhando pelo menor preço (tem clínica dando 20% de desconto). Com um salário que chega a 25 dólares por mês as mulheres estão fazendo fila na porta da clínica para se candidatarem a uma vaga. Os proprietários se defendem dizendo que só aceitam mulheres que já tenham filhos e que todas as despesas médicas são pagas pelos pais adotivos, mas com os preços caindo existe uma preocupação de que isto vá se refletir no atendimento médico às mães.

A clínica visitada pelo jornal, dá casa, comida e atendimento médico a 15 mulheres e já fez o parto de 40 bebês. Imagine a quantidade de clínicas que existem na Índia e se em todas existe algum foco no bem estar das grávidas.


Colaborou: Júlio de Almeida


Foto: Internet/Google


sábado, 19 de janeiro de 2008

Rumo à Índia e Dubai

É por onde minha imaginação anda viajando.

Há tempos a idéia me fascina. E, meses atrás, quando Mário Lúcio voltou a me lembrar que minha vez na escala de novelas não estava tão longe -quem é que lembra de prazos quando está de férias?- tive certeza: é esse o assunto.

Escrever sobre um universo é uma maneira de refletir sobre ele. A velha Índia, seus deuses, suas castas, sua visão de mundo tão diferente da nossa, esse constraste talvez mais acentuado que em qualquer outro lugar do planeta, entre indústrias de ponta e costumes tribais, essa sociedade que desponta como uma das maiores economias de um futuro próximo, mantendo tradições ancestrais, é ou nao é fascinante?

A verdade é que a convivência entre o novo e o antigo sempre me instigou, e foi ponto de partida de muitos trabalhos meus: Barriga de Aluguel, O Clone, Explode Coração, De Corpo e Alma.

Dubai entra em cena como representação desse mundo futuro que, ao que tudo indica, vai ter seu coração na Ásia.

Mas é importante deixar claro que não quero semelhanças com O Clone. Tanto que não vamos vamos falar dos muçulmanos na Índia: em matéria de religião, ficamos com o hinduísmo e o budismo

E aqui estou eu, a todo vapor, mergulhando nesse universo!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Momento de beleza

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Até quando?

É terrível imaginar que enquanto estou diante do computador, passeando na internet, escrevendo um blog, ouvindo a buzina dos carros que passam lá fora, e as vozes das madrugadas de copacabana, que chegam até aqui, mais de 700 pessoas, reduzidas à condição de escravos, estão acorrentadas pelo pescoço, amarradas em árvores, sendo submetidas a toda a sorte de humilhações e torturas. 

Não tem como não voltar ao assunto A carta do coronel Mendieta, sequestrado há 9 anos, que acabei de ler num jornal da Colômbia, descrevendo as condições desumanas a que estão submetidos os prisioneiros, dói nos nervos da gente!

Impossível que diante dessas denúncias não se tome uma providência para liquidar de vez essa organização criminosa!
 Hoje o presidente Uribe fez uma conclamação a todos os países pedindo o isolamento das FARC. Considera que essa seja a única maneira de esvaziar e vencer a facção. 

A foto é do Jornal El Colombiano. Retrata o protesto que aconteceu em Bogotá, diante da embaixada da Venezuela.

Leia AQUI o texto integral da carta do coronel

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Final Feliz



Tudo indica que o pequeno Emmanuel vai se ajustar sem traumas à família!
Emocionante esse abraço. E as autoridades colombianas foram sensíveis,ao
permitir que Clara vivesse esse momento tão íntimo longe dos refletores da mídia.

Também achei a imprensa sensível, por não ficar especulando se a relação com o guerrilheiro, pai da criança, foi consentida ou não. Ainda que não tenha sido, Clara faz bem em fugir dessas explicações: o menino Emmanuel já sofreu o suficiente, concordam?

sábado, 12 de janeiro de 2008

Bom domingo, ouvindo Gal e Caymmi

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Enfim, livres!



entrevista com Clara Rojas

mãe de Clara Rojas fala sobre a expectativa de rever a filha

COMPLEMENTO

Só faltava essa: Hugo Chavez pede que as FARC sejam retiradas da lista de terroristas! Como assim????

Não há situação mais cruel e humilhante para um ser humano do que o sequestro! centenas de pessoas apartadas de suas famílias, de suas vidas, muitas delas, como denuncia hoje uma das libertadas, a deputada Consuelo, mantidas acorrentadas e dormindo amarradas à árvores.
Se isso não é terrorismo, terrorismo mudou de nome!

emocionante o reencontro das reféns com suas vidas. Emocionante e doloroso. Toda a violência cometida contra elas está aí, bem à mostra, nos sorrisos e nas lágrimas de reencontro!


domingo, 6 de janeiro de 2008

Parabens, Leda!!!!!

Leda Nagle fez aniversário e hoje ganhou bolo da Regina Martelli!  delicioso: sucrilhos com chocolate! Leda começa o ano cheia de garra e idéias novas: ganhamos nós, que acompanhamos suas entrevistas sempre dinâmicas e inteligentes, no Sem Censura. Com certeza!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

2008

Esta fotografia eu tirei nesse final de ano, observando a multidão começar a se juntar, enfrentando a chuva, para esperar a parada iluminada passar.

Fico pensando nesse clima de euforia que toma conta das pessoas no final do ano: ano novo, vida nova, projetos, perspectivas, esperanças renovadas. 

É preciso ter esperanças. Que seria  se a humanidade não conseguisse sonhar que é possível construir um mundo melhor? um país viável para deixar de herança para os nossos filhos e para os nossos netos? certamente ainda estaríamos no tempo das cavernas.

Nós aqui no Brasil vivemos de maneira bonita essa espécie de ritual de renovação da esperança, dos sonhos que movem o mundo, que é a passagem do ano.  Mas quando chega a hora de mover o mundo -o nosso país, bem entendido-, a multidão se dispersa, a irmandade se desfaz.

O ano começou reafirmando os velhos problemas: Paulinho da Viola entregando o carro a assaltantes armados, Helena Ranaldi conseguindo escapar, num carro blindado, debaixo de tiros da ação de bandidos, o filho de Lidio Toledo e a mulher baleados e em estado grave... isso só pra falar de gente que a gente conhece, pelo menos de nome. 

Teve também a visita do governador ao hospital público, onde faltavam médicos e equipamentos, e se podia ver a revolta e o sofrimento dos pacientes, entregues à própria sorte!

A festa do reveillon de 2009 certamente será tão bonita e bem cuidada quanto a de 2008. 
Mas nosso sonho de consumo é esperar que as reportagens não sejam as mesmas: que realmente tomem medidas práticas e urgentes contra a violência, e que haja o devido investimento na área da saúde.

Melhor do que os fogos, melhor do que qualquer festa, seria poder assistir uma visita das autoridades a um hospital inteiramente reformulado, onde os pacientes pudessem testemunhar o bom atendimento, e que nos jornais não predominassem, sobre todas as notícias boas, as fotografias de pais e mães, chorando os filhos mortos.

Que 2008 seja o ano em que esse sonho de todos nós se torne possível!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

e por falar em Natal...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

perdeu o bonde andando?



Hoje fiquei horas presa num engarrafamento desses bem típicos das vésperas de natal, quando parece que todos os carros da cidade estão na rua! as pessoas buzinavam, nervosas, reclamando da loucura que estava o trânsito.

E pensar que toda aquela balbúrdia vai ser motivo de riso pras gerações futuras, a bordo de transportes que ainda nem podemos supor! da mesma forma como hoje nós achamos graça nas reações apavoradas e indignadas das geracões passadas contra a velocidade e o perigo representado pelos bondes elétricos, que já foram chamados de o perigo amarelo! 

olhem o que diz o Correio da Manhã, em 1906:
Não é que a Light decidiu exterminar a honesta população desta cidade? (...) Os bondes elétricos continuam a esmagar e trucidar inocentes passageiros.

E a revista Fon-Fon: 
Os estropiados aumentam e a população de tais lugares, se de todo não desaparecer, em breve ficará privada de braços e pernas.

Quem andou de bonde não esquece os reclames.  O mais famoso foi escrito por Bastos Tigre:


Veja gentil cavalheiro
o belo tipo faceiro
que o senhor tem a seu lado
e no entando, acredite:
quase morreu de bronquite
salvou-a o rhum creosotado!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

dura lex sed lex II

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A propósito da sentença transcrita no post anterior, o Helio Pimentel manda uma informação  muito interessante. Diz o Helio:

No livro "Macacos", o Drauzio Varella conta que, entre os orangotangos, existem uns machos de menor porte que atacam as fêmeas dos outros para estuprá-las.

Estes estupradores, quando são pegos, são condenados à morte e jogados do topo das árvores.


É...! Manoel Duda não se criava lá não! 

sábado, 15 de dezembro de 2007

dura lex sed lex: Sentença Judicial de 1833


Mais uma do meu arquivo. É uma sentença proferida pelo juiz  da província de Sergipe, num caso de tentativa de estupro. Como diria dona Jura -né brinquedo não! 

O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazera lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará.
Elle não conseguiu matrimônio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágiodo sucesso faz prova.

CONSIDERO

que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana; que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas; que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens.

CONDENO

o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa. Nomeio carrasco o carcereiro.
Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos Juiz de Direito

Vila de Porto da Folha (Sergipe) 15 de outubro de 1833

Fonte: Instituto Histórico de Alagoas
                
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o canto do Uirapuru

A foto é do Dalgas Frish, que dispensa apresentações. Dalgas foi pioneiro na gravação do canto das aves sul americanas, e o único a conseguir capturar o lendário canto do uirapuru verdadeiro, que só existe nas florestas do Acre.

O uirapuru canta somente uma vez por ano, durante a confecção de seu ninho. E quando canta, os outros pássaros calam. Dalgas conseguiu a célebre gravação em 1962, nas matas do seringal Bagaço, e o feito teve logo repercussão internacional. Um jornal americano o registrou com a seguinte manchete: o caruso das selvas grava um best-seller

Na mitologia amazônica, o uirapuru é símbolo da sorte e da felicidade, e quem escuta seu canto pode fazer um pedido aos céus e será atendido.

Que ele cante para todos nós!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

As memórias do coronel Fittipaldi

Estou voltando de Brasilia. Fui para o lançamento do livro do coronel, do seu Hernani, do pai da Lucinha, minha amiga-irmã, companheira de toda a adolescência.  

Fizemos o clássico no Elefante Branco, íamos juntas aos sábados do Yate Clube, às domingueiras do Congressinho, e os finais de semana eram na casa que seu Hernani e dona Eunice tinham construído no lago, que naquele início dos anos 60 ainda estava quase desabitado.

Seu Hernani, gaúcho de Uruguaiana, despois de ter sido piloto e ajudante de ordens de Getúlio Vargas, foi para Brasilia levado por Juscelino: na época, era o único profisional que dirigia helicóptero na América do Sul, e o uso do helicóptero era essencial numa cidade que estava sendo construída, ainda sem ruas, onde só se podia chegar aos lugares pelo ar.

A convivência com Vargas é o assunto desse primeiro livro de memórias. Digo primeiro, porque o coronel ainda tem muito a contar. Foi testemunha e personagem de fatos históricos, durante o período Vargas, Juscelino e Joao Goulart. 

Foi ele quem tirou Jango de Brasilia e levou para o Uruguai, quando do golpe militar de 64. É claro que o prenderam na volta, assim que aterrisou.  E é claro também que o feito fez do coronel o nosso herói preferido, naqueles dias em que a ditatura se instaurava.

Além da importância histórica, o livro é delicioso de ler. 


terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Hipnose para fumantes


Li no France Soir. Depois que entrou em vigor a lei que proibe fumar nos lugares públicos, o jornal vem abordando, todos os dias, um tema em torno do cigarro. O de hoje é a utilização da hipnose terapêutica como meio de se conseguir vencer a dependência do tabaco.

O método é simples: consiste em sugerir, ao hipnotizado, a rejeição ao fumo, procurando desfazer em seu inconscientes, as associações que ele criou entre o cigarro, estados emocionais e situações cotidianas, como tomar um cafezinho, por exemplo, falar no telefone, coisas assim.

Quem fuma ou já fumou, sabe que a dependência vive mesmo dessas associações. O cigarro pode ser uma muleta para suportar tensões cotidianas, ajuda a pensar melhor, libera a imaginaçao, faz companhia. Enfim, está sempre ligado a sensações agradáveis. 

Nesse sentido, ainda que a longo prazo, as proibições acabam tendo seu efeito, na medida em que vão criando associações desagradáveis com o fumo: nao é nada cômodo deixar os amigos na mesa e ir para a porta de um restaurante fumar, por exemplo. 

Sei não... se a hipnose terapêutica for mesmo capaz de  cortar esses vínculos, pode ser uma boa dica. 

Leia AQUI

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

ainda o caso do menino Hugo


Hugo podia ser o filho de qualquer um de nós: qual é o menino que não joga futebol? se a algazarra natural do jogo incomodava os vizinhos, será não havia maneira mais humana e mais civilizada de fazer alguma coisa? precisava dar tiros para por fim à brincadeira?

Anos atrás tivemos um caso semelhante. Foi na Urca. Incomodado com a barulheira que vinha da rua, o sujeito disparou uma flecha em direção às pessoas e atingiu, também, uma criança. 

Isso mesmo, uma flecha. A perícia localizou exatamente de que janela ela havia partido. Que se saiba, sem necessidade de nenhuma testemunha que pudesse dizer para onde estava voltada a cabeça do menino no exato momento em que a flecha o atingiu. Para a perícia, bastou saber o local onde ele havia caído. 

Suponho que uma bala na cabeça derrube uma pessoa ainda mais depressa do que uma flechada, e essa constatação basta para qualquer leigo concluir que Hugo só poderia estar no lugar onde caiu, quando recebeu a bala.

Até hoje pensei que a perícia só precisasse saber a posição de um corpo, para concluir de que direção partiu uma bala!  Vocês também não pensavam????

Espero que os nossos peritos lembrem dos seus filhos, dos seus netos, que certamente também gostam de jogar futebol e não deixem uma barbaridade dessa sem resposta: Hugo tinha o direito de crescer!

heinnnn???? heinnnn????


Nos jornais de hoje, um perito explica que vai ser difícil saber de onde partiu o tiro que atingiu o menino Hugo, quando jogava uma partida de futebol no Clube Federal, alto Leblon:

o alvo é móvel. Até agora, é impossível precisar a posição da vítima no momento do impacto. Sabemos que ele estava parado diante do gol, olhando para a arquibancada, mas ninguém soube precisar a posição da cabeça...

Essa, nem em novela!

Pelo andar da carruagem, só uma coisa se pode concluir com certeza: é mais um caso que vai ficar impune!

domingo, 9 de dezembro de 2007

Novas mídias, novos talentos

                   Uma das inovações mais bonitas e bem-vindas da internet é essa de dar às pessoas a possibilidade de chegar ao público exibindo um trabalho ou um talento, sem mais depender de encontrar alguém que faça isso por elas.

                 O YouTube está aí, revelando muita gente boa nas mais diversas áreas. E o primeiro concurso de curtas promovido pelo site foi vencido por brasileiras, que disputaram com 3.600 concorrentes de várias partes do mundo: "Laços", de Flavia Lacerda e Clarice Falcão levou o prêmio de 5 mil dólares, mais um espaço no festival de Sundance.

                Parabens, meninas! e vamos torcer por vocês!

Saiu o DVD de "Amazônia -de Galvez a Chico Mendes"!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Morte em Veneza: o drama na vida real

Quem não se lembra do Tadzio, de Morte em Veneza? o adolescente que encarnou o ideal de beleza que apaixona, confunde  e leva à morte o músico  Aschenbach?

É irônico, mas na vida real, o destruído mesmo pela beleza de Tadzio foi seu intérprete, o menino sueco Bjorn Andrésen, que tinha só 14 anos quando fez o filme que o transformou em objeto de desejo no mundo inteiro.

Quando Visconti o escolheu ele estudava música, morava com o padrasto e tinha, naturalmente, expectativas muito mais modestas na vida.  Depois de Morte em Veneza tentou seguir a carreira de ator, lançou-se como cantor, mas não teve nenhum sucesso: havia-se tornado prisioneiro de Tadzio.

Há casos assim, em que a personagem aprisiona o intérprete, torna-se uma camisa de força que o impede de seguir adiante.  Bjorn conta que não importava o que ele quizesse mostrar: todas as platéias só esperavam e queriam ver "o menino mais bonito do mundo", que Visconti havia imortalizado.

Estava lendo uma entrevista dele, de 2005, quando completou 50 anos. Bjorn não tem boas lembranças daquela época, muito menos do filme.  Está certo de que teria sido mais feliz se não o tivesse feito, e confessa que se sentiu traído por Visconti, porque filmou sem ter nenhuma noção da temática homossexual de Morte em Veneza, que o perturbou a ponto de interferir em sua sexualidade.

Acaba a entrevista  com uma frase amarga, mas bem verdadeira: 

-Todos procuram o menino mais bonito do mundo e só encontram o menino mais velho do mundo
Aqui está ele, aos 52 anos:

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Essa é a Nana

A Modernd Sound ficou pequena para ver Nana Caymmi nessa noite de terça: quem não conseguiu sentar ficou em pé mesmo, lotando a loja até a porta da rua, mas ninguém arredou o pé antes da última música!

Nana arrasou. Rasgou a alma. Cantou Caymmi, cantou os boleros que aprendeu no tempo que viveu na Venezuela, casada com o médico que é pai dos seus três filhos, se emocionou falando de amor, dos pais, do natal que se aproxima, aplaudiu a derrota de Chavez no plebiscito do último dia 2 e protestou contra a pirataria, conclamando a platéia a não comprar discos pirateados: 

entendo que a idéia de comprar o disco dos seus cantores preferidos por 3, 5 reais,  seja atraente -ela disse-. Mas lembrem: PIRATARIA É DESEMPREGO. NAO FINANCIEM O DESEMPREGO!

Foi ovacionada! Tomara Deus que venha a ser atendida também!

Gibis


Olhem o que eu encontrei na página do Luiz D', um apaixonado pelo Rio antigo. São os gibis da minha infância também, ainda que eu tenha sido criança muito longe daqui, lá em Rio Branco, no Acre!

Eram tempos de faroeste: filmes de bang bang, brincadeiras de mocinho e bandido, revolver de espoleta, Roy Rogers, Hopalong Cassid, o nacional Jerônimo -o herói do sertão, que virou até novela de rádio.

Meninos vestidos de cowboy defendiam fortes imaginários, expulsavam forasteiros, cavalgavam cabos de vassoura como se fossem cavalos puro sangue. 

Nesse tempo, ficção era ficção, realidade era realidade.  Todo mundo sabia a diferença. Não havia esse patrulhamento de hoje, essa tendência a enquadrar a ficção no politicamente correto e deixar a realidade entregue às traças!  não passava pela cabeça de nenhum pai que o filho poderia se tornar um aficcionado em chacinas se desse tiros com revolver de espoleta.

A geração dos cowboys cresceu pacífica: paz e amor, bicho!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Bom de lembrar - Cartola

Sou louca por Cartola, e quero compartilhar com vocês esse video que achei no You Tube: é um trecho do filme Cartola, música para os olhos, direção de Lirio Ferreira e Hilton Lacerda, onde ele canta para o pai, que reencontrou depois de muitos anos.  Bonito demais!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

ainda o caso da menina do Pará

Nessa história, quanto mais as autoridades locais se pronunciam, mais feia a coisa fica! Ontem foi a vez do delegado-Geral do Pará, Antonio Benalussy, dizer que a menina presa numa cela com 20 homens devia ser débil mental, porque não disse que era menor no momento da prisão!

Deduz-se que, para o delegado,  se fosse maior, tudo bem!  

Enquanto a autoridade policial atribui a culpa das violências sofridas à debilidade mental da vítima, o bispo dom Flavio Jovenalli não deixa por menos: acusa a família da menina. Para ele, os maiores responsáveis pelos abusos e torturas a que foi submetida a menor, são os pais, o descaso dos pais que, segundo afirma, nem foram à delegacia no período em que a filha esteve lá.

Dom Flavio pelo visto foi, porque há 10 anos acompanha a situação de adolescentes e mulheres no sistema carcerário do Pará. Se durante o mês em que a menina ficou presa não visitou esta delegacia, certamente, ao longo desses 10 anos, viu mulheres maiores de idade em situação semelhante: hoje mesmo apareceu outra no noticiário, contando que foi encarcerada numa cela com 40 homens, e que sofreu, também, toda sorte de abusos e violências.  A própria governadora admite que essa é uma prática comum no seu estado.

Quer dizer: o bispo também sabia!!!  e nem achou que era o caso de botar a boca no mundo!

leia mais no Globo online

terça-feira, 27 de novembro de 2007

o enigma dos geoglifos do Acre


Faz tempo que estou querendo falar dos geoglifos. O desmatamento no Acre tem revelado uma enorme quantidade deles. Vejam como as formas geométricas parecem ter sido desenhadas a régua e compasso.

Ainda não se sabe com certeza quando surgiram, mas segundo a teoria mais aceita, seriam anteriores ao aparecimento da floresta, que tem por volta de 13 mil anos, e se formou no final da idade do gelo.


Até então nós sempre pensamos que aquela região, ocupada pela floresta, não havia sido habitada antes por nenhuma sociedade humana, mas os geoglifos parecem indicar o contrário: eles apontam para a possibilidade de ter existido, ali, uma grande civilização.

O assunto mobiliza pesquisadores do mundo inteiro, que tem visitado o Acre para estudar a descoberta. Até agora já foram encontrados mais de cem desses geoglifos. O resto é mistério que ainda nos cabe decifrar.

obs. as fotografias são de Sergio Valle.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Amazônia para sempre


Vejam que beleza! Victor Fasano mandou a foto, tirada ao pé de uma das árvores centenárias que você só verá na Amazônia. São árvores assim que as queimadas estão destruindo.

Juca de Oliveira, Cristiane Torloni e Victor Fasano, foram até lá,  gravar a minisérie "Amazônia - de Galvez a Chico Mendes", viram de perto o drama dessa destruição e lançaram um movimento - Amazônia para sempre- uma convocação aos brasileiros, para que se unam pela preservação da nossa floresta.

Veja o vídeo e assine o manifesto

domingo, 25 de novembro de 2007

duas faces da Impunidade

No Pará, mulheres, e até meninas suspeitas de furto, são jogadas em celas com 20, 30 homens, estupradas e seviciadas com o beneplácito da polícia e da justiça



Enquanto isso, Pimenta das Neves, que assassinou friamente Sandra Gomide, continua em liberdade, curtindo a praia, mesmo depois de julgado e condenado a 19 anos e tantos meses de cadeia: direito garantido por unanimidade pelo STJ.



Se historicamente a legislação penal surgiu para proteger a sociedade, entre nós a distorção é clara: nossas leis parecem feitas de encomenda para livrar as classes mais favorecidas do alcance da justiça - e livram! um bom advogado sempre encontra a porta de saída -que o diga Pimenta das Neves.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Ídolos: lá e cá


Os roteiristas americanos estão em greve, mas segundo noticia o El Mundo, vão dar uma trégua, em respeito e homenagem a Elizabeth Taylor.

A atriz, uma das grandes divas do cinema, há anos se recolheu e quase não aparece em público. Mas nesse 1 de dezembro, dia Internacional da Aids, vai fazer uma apresentação milionária, e a renda obtida será destinada à luta contra o vírus. Solidários, os roteiristas já se comprometeram a não fazer piquetes na porta do teatro.

Bonito esse respeito, essa reverência que o norte-americano tem para com seus ídolos. Eles envelhecem, saem de cena, mas não caem no esquecimento: continuam sendo tratados como ídolos, inclusive pelos mais jovens, que nem tinham nascido quando estavam no apogeu.

Nós temos outra cultura. Entre nós, sair de cena é sair da memória também. Quantas vezes a gente escuta alguém dizer: "fulano acabou." O "acabou", no caso, significa: envelheceu, não atua mais, não dança mais, não joga mais futebol,  não está mais nas páginas das revistas.  Há um certo prazer em derrubar ídolos. 

Se Elizabeth Taylor fosse brasileira será que ela conseguiria fazer uma apresentação milionária?  a greve faria essa trégua?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

a face sombria da Internet


Quando comecei a frequentar BBS, lá pelos anos 80, um dos aspectos que logo me chamou a atenção foi a possibilidade que o espaço virtual oferece para promover encontros que seriam impossíveis, ou pelo menos muito improváveis, no mundo real. Dessa observação nasceu a novela EXPLODE CORAÇÃO, que contava a aproximação de uma mocinha da comunidade cigana com um industrial poderoso, candidato a um cargo político.

Essa é uma bela característica da internet: ela embaralha de um jeito novo as personagens da vida real, quebra as barreiras estabelecidas pelas diferenças de classe, de credo, de cor, e impõe outro critério de aproximação entre as pessoas: as afinidades.

Fascinante, sem dúvida. Mas essa capacidade de reunir, com muita rapidez, gente que se identifica, tem seu lado negativo, porque tem servido, também, para formar verdadeiras comunidades de pedófilos, psicopatas, pervertidos e outros tantos mais. Talvez a maior parte dessas pessoas não passasse da fantasia ao ato, sem o estímulo que vem do conjunto de que participa. Mas enquanto parte de uma multidão virtual ensandecida, acaba indo longe.

Eu mesma já fui vítima, no Orkut,  de uma horda de psicopatas, travestidos de protetores de animais, mas não é deles que quero falar hoje, é de uma notícia que acabei de ler no CORREIO DA MANHÃ, jornal de Lisboa: 

a polícia de Aveiro conseguiu evitar um suicídio coletivo que vinha sendo combinado, por adolescentes, através do Orkut. Segundo o jornal, a comunidade (a maioria é de brasileiros), estimulava a auto mutilação,  como preparo para o momento final, esse do suicídio. O menino que possibilitou a intervenção policial tinha apenas 14 anos!

Existem várias comunidades do gênero, insuflando aneurexia, depressão, suicídio, psicopatias e até crimes de todas as espécies. Tudo isso joga outra vez na mesa um debate antigo, que já nos tempos de BBs dividia opiniões -o controle do espaço virtual. 

Como hoje, já estavam lá os que advogavam o mundo virtual fora do alcance das leis que nos regulam, aqueles que acreditavam que ele devia estar submetido às mesmas leis, e ainda um terceiro grupo (minoritário) que defendia a tese do meio termo, ou seja: nem tanto ao mar nem tanto à terra.
 
O que é que você pensa sobre isso? A gente volta a falar do assunto.

Veja a continuidade da notícia sobre o caso dos adolescentes no Correio de hoje:

domingo, 18 de novembro de 2007

Bom domingo, com JUVENAL ANTUNES


Juvenal Antunes foi para o Acre como promotor de Justiça, mas era mesmo um boêmio inveterado. Não se enganem com a foto: o terno nunca foi seu uniforme: passava os dias metido num robe, na porta do hotel Madrid, onde vivia em Rio Branco, bebendo, fazendo versos e proclamando seu amor à Laura, mulher casada que lhe inspirou os mais belos sonetos.
Arredar o pé dali? nem pra receber o ordenado, que lhe chegava por exercícios findos!

Armando Nogueira chegou a conhecê-lo, ainda menino. À caminho do grupo escolar, costumava parar na frente do hotel Madrid para ouvir o poeta, e conta que foi assim que se apaixonou pelas palavras, pela arte da escrita.

Juvenal foi personagem da minissérie Amazônia e de muitos romances que falam do Acre desses tempos.  Continua bem vivo na memória dos acreanos, e imortalizado em sua mesa cativa, em frente à Fundação Cultural, no Centro Hisórico de Rio Branco. 

Na minissérie Amazônia ele foi interpretado pelo Diogo Vilela, que recitou sua poesia mais conhecida:


ELOGIO DA PREGUIÇA
(A mim mesmo)

"preguiça amamenta muita virtude"



Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!

Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.

Está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã.

Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.

Ó sábios, dai à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!

Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em, na paz, preparar a luta, a guerra!

Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!

Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas.

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas!

Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
- Mas uma rês votada ao matadouro!

Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz...

Que arda, depressa , a colossal fogueira
E morra assada, a humanidade inteira!

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?

Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?

Queres riquezas, glórias e poder?
Para que, se amanhã tens de morrer?

Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro...

Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?

Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!

Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!

Ó Laura, tu te queixas que eu, farcista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,

E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor.

Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.

Que me não faças mais essa injustiça,
Se ontem não fui te ver, foi por preguiça.

Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir, sonhar.

(Cismas, 1908)

saiba mais no Blog do Altino, lendo as duas crônicas de Armando Nogueira sobre o poeta, o post A CASA DO POETA JUVENAL ANTUNES, que mostra um vídeo com Ida Rodriguez, dona do hotel Madrid, onde morava o Juvenal, e descreve o encontro comovente entre a hospedeira e o poeta, quando tia Ida, então com 92 anos, olhou para a estátua e disse emocionada: Fala, Juvenal!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

cigana Kaldarash dançando

Olhem só o que eu achei, nesses tempos de arrumar o arquivo: um momento da pesquisa de Explode Coração, a novela onde mostrei a cultura cigana.

A moça é da família do Mio Vacit, que junto com a Niffer e outros membros da comunidade cigana, me ajudou um bocado a entender os costumes e o imaginário desse povo tão bonito.

A dança aí é completamente livre, nada de coreografia.

Mais Sessão Nostalgia

Bom feriado pra vocês, com Vinicius e Toquinho.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Quando 58 é igual a 8: se muito...!



Ontem, em Brasilia, mais uma condenação que dá a falsa impressão de que se fez justiça: Adriana, a ex-doméstica que junto com o caseiro assassinou cruelmente a universitária Maria Claudia, foi condenada a 58 anos de cadeia. 

Na prática isso quer dizer que, já estando presa há 3 anos, daqui a mais 3, no máximo 4, ganha a liberdade. E ainda terá direito a bônus, como já contei dois posts atrás, falando do caso Liana: 5 anos depois de a sentença transitar em julgado, Adriana volta a ser primária, a ter a ficha limpa como qualquer um de nós.

Para quem não lembra, o casal trabalhava na casa da moça, e ambos declaram que eram tratados por todos como pessoas da família. Adriana tinha um filho pequeno que ficou no norte, e que a mãe de Maria Claudia, comovida com a saudade que a doméstica dizia sentir do menino, mandou buscar para ser criado ali, ao lado dela. Ainda assim, os dois planejaram o estupro e a execução de Maria Claudia, e depois de enterrarem seu corpo embaixo de uma escada, na casa da família, juntaram-se aos pais dela, fingindo compartilhar da aflição pelo seu desaparecimento.


Ouvi e ainda ouço muitas críticas dos defensores da nossa tolerância penal, por ter conseguido mobilizar a sociedade e fazer passar, através de uma campanha de assinaturas, a emenda que introduziu o homicídio qualificado na lei dos crimes hediondos. O homicidio qualificado é aquele em que existe a clara intenção de matar. Não se trata de um acidente, não se trata de um acaso, não estamos falando de alguém que, vendo sua casa invadida, atire no invasor, nem dos passionais, que num transbordamento de emoção acabam tirando uma vida: estamos falando de gente que planeja, arquiteta e executa um assassinato usando de meios crueis.

Os meus críticos dizem que a tolerância maior em relação ao homicídio se justifica por se tratar de um tipo de crime que qualquer um pode cometer! Êpa!!!!! qualquer um, não! não é qualquer um que tem a capacidade de matar e ir consolar a familia da vítima na delegacia, como fizeram os assassinos da Daniella, nem de rezar de mãos dadas com a família da moça que acabaram de trucidar, como fizeram os assassinos da Maria Claudia.

O que pode acontecer a qualquer um de nós é ser vítima de gente como essa! se é que dá pra chamar isso de gente!


ADENDO

depois que publiquei o post, a Ursa lá do Orkut divulgou esse vídeo que foi mostrado ontem, durante o julgamento. A narração é da Cristina, mãe da Maria Claudia: essa é a dor que as nossas leis ignoram.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

o negrinho do pastoreio


Nào sou de muita crença, mas tenho uma fé inabalável e que vem de longe: o negrinho do pastoreio. Li a história dele ainda menina, no Acre, e lembro até hoje o quanto me comoveu e impressionou a saga do menino escravo, que tomava conta de rebanhos e nem nome tinha, por isso o chamavam assim -negrinho do pastoreio.

Pertencia a um estancieiro muito cruel, que o fazia trabalhar dia e noite, sem direito a descanso. Um dia dormiu de tanta exaustão e, enquanto dormia, um dos cavalos fugiu. Quando soube, o estancieiro espancou o negrinho, enfiou dentro de um formigueiro e o deixou em carne viva, de tanto bater e maltratar.

Depois, já noite escura, o obrigou a sair pelos campos, desse jeito mesmo, todo ferido, com um toco de vela na mão e ordem de não voltar até encontrar o cavalo fugido.

Ele foi, e contam que cada gota do toco de vela que pingava no chão virava como se fosse uma estrela, até que o campo ficasse tão iluminado por essa luz divina, que o negrinho pôde avistar o cavalo. Então caiu ali mesmo, agonizante, e nossa senhora desceu do céu, o pegou no colo e levou com ela. Quando o dia amanheceu encontraram o corpo do negrinho, e o cavalo pastando ao lado.

Desde então, o negrinho do pastoreio é o patrono das coisas perdidas. Se a pessoa está angustiada porque perdeu um objeto, um documento, alguma coisa importante, é recorrer a ele que ele traz de volta. Em agradecimento quer que lhe acendam uma vela.

É surpreendente, acreditem!

A estranha matemática da justiça brasileira


Desde ontem a imprensa noticia o resultado do júri: 110 anos de cadeia para o homem que matou com um tiro o jovem Felipe Caffé, depois sequestrou, manteve em cárcere privado e praticou toda a sorte de violencias contra a menina Liana.

110 anos de cadeia parece muita coisa, não é? mas a justiça brasileira tem uma matemática própria. Eu sempre penso que a imprensa devia explicar essa matemática, quando noticia penas que, de tão altas, acabam deixando a sociedade com a falsa impressão de que pelo menos se fez justiça.

Pra começar, porque a pena aplicada foi superior a 20 anos, Pernambuco tem direito a ser julgado de novo. O que significariam mais quatro anos de tormento para as famílias Friedenbach e Caffé. Segudo informa o advogado de defesa, o criminoso, numa demonstração de bons sentimentos, abriu mão do benefício, e fica com a pena de 110 anos mesmo.

Claro.Que diferença faz ser condenado a 110 anos ou a 19? a justiça diz que ninguém pode ficar preso mais de 30 anos, não importa a gravidade do crime que tenha cometido. Pernambuco vai ter direito a todos os benefícios da lei com base nesses 30 anos, e não nos 110 a que foi condenado. No máximo em 8 anos estará na rua, e 5 anos depois que a sentença transite em julgado, se tornará primário outra vez. Como se Liana e Felipe nunca tivessem existido!

Até quando?

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O Rio de Janeiro que Hollywood inventou


Entrei numa livraria e lá estava o livro da Bianca: O Rio de Janeiro que Hollywood inventou. Me deu  orgulho e uma saudade danada da pesquisadora que parece que eu perdi de vez, depois de Amazonia, para o mundo acadêmico: Bianca começou a dar aulas na UERJ e, por causa disso, teve que se desligar da equipe. Ainda espero que não completamente.

Ela trabalhou comigo na pesquisa da novela América e depois em Amazonia. Fomos juntas para os Estados Unidos, entrevistar imigrantes brasileiros e latinos que tinham feito a travessia pelo deserto do México ou pelo mar, em busca do sonho americano, visitamos as prisões onde estavam confinados aqueles que tinham sido pegos pela polícia da fronteira, e convivemos com muitos que viviam ilegais no país. Foi uma experiência e tanto.

Além de conhecer bem o assunto do ponto de vista acadêmico, a Bianca havia morado muitos anos nos EUA: fez doutorado em História pela Universidade de Binghamton, e lá nasceu sua filha. Quer dizer, ela pôde contribuir para a novela também com sua vivência pessoal, e acredito que essa vivência, esse esbarrar a todo momento com a caricatura do Rio de Janeiro tão divulgada entre os norte-americanos, tenha sido a semente desse trabalho. 

O olhar dos estrangeiros sobre o Brasil já rendeu uma vasta literatura. Tudo começou com a carta de Caminha e os  relatos dos viajantes que andaram por aqui,  nos primeiros séculos após a descoberta. Eles deram os primeiros traços na construção do retrato que fazem de nós lá fora.
 
O livro da Bianca mostra como Hollywood contribuiu e contribui para reforçar os estereótipos desse retrato, através de filmes que o mundo inteiro vê: da barafunda geográfica que situa o pelourinho no Rio de Janeiro, às praias cariocas, onde macacos e garotas de ipanema convivem naturalmente. É competente, delicioso de ler. Depois me digam.

E a gente não tem como deixar de refletir sobre o quanto nós, brasileiros, contribuimos também para a preservação dos estereótipos que tanto nos deformam! muitas vezes, voltando do exterior para o Rio de Janeiro, vi passar na tela do avião aqueles curtas de apresentação da cidade, onde só focalizam traseiros metidos em fios dentais e imagens do carnaval com mulheres semi-nuas. Tipo: bem-vindos ao país do sexo e do carnaval! depois a gente reclama!