quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Morte em Veneza: o drama na vida real

Quem não se lembra do Tadzio, de Morte em Veneza? o adolescente que encarnou o ideal de beleza que apaixona, confunde  e leva à morte o músico  Aschenbach?

É irônico, mas na vida real, o destruído mesmo pela beleza de Tadzio foi seu intérprete, o menino sueco Bjorn Andrésen, que tinha só 14 anos quando fez o filme que o transformou em objeto de desejo no mundo inteiro.

Quando Visconti o escolheu ele estudava música, morava com o padrasto e tinha, naturalmente, expectativas muito mais modestas na vida.  Depois de Morte em Veneza tentou seguir a carreira de ator, lançou-se como cantor, mas não teve nenhum sucesso: havia-se tornado prisioneiro de Tadzio.

Há casos assim, em que a personagem aprisiona o intérprete, torna-se uma camisa de força que o impede de seguir adiante.  Bjorn conta que não importava o que ele quizesse mostrar: todas as platéias só esperavam e queriam ver "o menino mais bonito do mundo", que Visconti havia imortalizado.

Estava lendo uma entrevista dele, de 2005, quando completou 50 anos. Bjorn não tem boas lembranças daquela época, muito menos do filme.  Está certo de que teria sido mais feliz se não o tivesse feito, e confessa que se sentiu traído por Visconti, porque filmou sem ter nenhuma noção da temática homossexual de Morte em Veneza, que o perturbou a ponto de interferir em sua sexualidade.

Acaba a entrevista  com uma frase amarga, mas bem verdadeira: 

-Todos procuram o menino mais bonito do mundo e só encontram o menino mais velho do mundo
Aqui está ele, aos 52 anos:

9 comentários:

Marcos Menezes disse...

Soa como uma grande tragedia.

Pedro Vieira disse...

Mais um caso do poder destruidor que a fama pode ter! E mais um caso de uma carreira iniciada na infancia que nao da certo na vida adulta! Contudo, isso nao e regra! Atores como Christian Bale e Leonardo di Caprio comecaram cedo e, mesmo depois de mais velhos, conseguiram se firmar enquanto profissionais cenicos. No Brasil, Gloria Pires e Deborah Secco sao exemplos de atrizes que cresceram em cena e que, depois de adultas, galgaram situacoes profissionais de prestigio. Para superar essa maldicao do ator infantil e preciso uma combinacao de dois fatores:talento e uma boa administracao da carreira. Uma das duas coisas faltou ao Bjorn Andrésen (ou talvez as duas).
Obs: Agora, se o papel e bom, nao tem jeito: o ator fica marcado; quem olha para Ana Paula Arosio, que e uma grande atriz, e ainda nao enxerga Hilda Furacao, dez anos depois?

Cora disse...

Há sempre uma outra interpretação possível. Visconti era um diretor extraordinário; quem garante que o pobre Bjorn tivesse, de fato, algo mais a mostrar ao mundo, além da beleza? Será que pode um talento verdadeiro desaparecer apenas por causa de um papel, ainda que este papel seja no Morte em Veneza?

Essa história parece uma fábula. Deve ter uma moral qualquer embutida nisso tudo, mas nem desconfio qual seja.

O diabo, mesmo, é o que o tempo faz com a gente...

Beijão, meu bem! Muito obrigada pelo carinho constante, você é uma amiga muito querida.

Ana Clara disse...

como diz a Cora aí em cima, Visconti era um diretor ezxtraordinário mesmo, mas será que era extraordinário como ser humano também?

Vera disse...

Criança e sucesso é uma associação perigosa: só lembrar Shirley Temple, que conquistou o mundo quando criança, e depois de adulta não conseguiu continuar a carreira. Virou alcoolatra e se auto-destruiu.
beijo

Leila disse...

Aqui fizeram isso com o Pixote, com a Narjara Tureta e vão fazer com outros e mais outros. Aliás, criança prodígio é um saco!

José Vitor Rack disse...

Glória, Thomas Mann tem a tragédia impressa em seus dedos, em tudo que escreveu e em sua própria vida. Nada mais natural uma história assim em um filme rodado baseado em sua obra.

Selton Mello é um sobrevivente do sucesso infantil. São poucos, como disseram acima.

O que vale é que o filme é um primor de delicadeza e uma lembrança que Bjorn algum dia há de sublimar para seu próprio bem.

Thiers R > disse...

".....O que vale é que o filme é um primor de delicadeza e uma lembrança que Bjorn algum dia há de sublimar para seu próprio bem....."

Esta frase me soou como um tudo. O filme é explêndido em todos os sentidos, e não o vejo tratando qstões homo, bis ou heteros.. o filme trata da tragédia humana. Relata uma Veneza em decadência assolada pela peste. Ao lado da suntuosidadade ppia da cidade, da música de Mahler e da beleza de Tadzio. É pra ter orgulho de ter feito o filme. É fundamental que Bjorn faça as pases com seu passado, só assim poderá concluir seu futuro que ainda existe apesar de seus 52 anos. Lembrei-me neste preciso instante de Leni Riefenstahl a musa do nazismo que seguiu carreira, foi mergulhadora e fotógrafa.. Ter vivido o nazismo não atrapalhou a vida daquela mulher que morreu com qse 100 anos e em plena atividade.
Há tempo Bjorn, mãos na massa!

Lou Magalhães disse...

...Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti erra errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado...
Tabacaria (trecho) - Fernando Pessoa
Com ou sem a fama,o grande desafio é não se deixar engessar.
Parabéns pelo blog!
Lou Magalhães