quinta-feira, 27 de março de 2008

as margens do Ganges


Estamos em Varanasi, uma das 7 cidades sagradas da Índia.
Varanasi tem 5 mil anos, é uma das cidades mais antigas do mundo, senão a mais antiga: nasceu no terceiro milênio antes de Cristo.

Na rua, peregrinos, turistas, macacos, vacas, riquixás, carros e bicicletas, se embolam no belo caos organizado que só a Índia é capaz de orquestrar!

Uma multidão de pelegrinos vem se banhar nas águas do rio Ganges. Conta-se que, no princípio , o Ganges corria no céu, enquanto o sol queimava a terra inteira. Atendendo às preces dos devotos, Bhrama o mandou para a terra, pelas montanhas do Himalaia. Mas para evitar que a força de suas águas causasse destruição, Shiva o fez descer pelos seus cabelos, suavizando a queda. Assim nasceu Maa Ganga, a mãe Ganga, como chamam os hindus. E a devoção de Varanasi a Shiva.

Para um hinduísta, banhar-se nessas águas purificadoras é um ritual que ele sonha fazer pelo menos uma vez na vida. A suprema benção é ter suas cinzas atiradas no Ganges, porque o rio sagrado tem o poder de libertar a alma da samsara, o penoso ciclo das reencarnações, e permitir que ela se una diretamente ao criador.

Por conta disso, chegam todos os dias à Varanasi pessoas muito velhas ou muito doentes, e trens que trazem mortos para serem cremados às suas margens.

Todas as tardes, no cair do sol, acontece essa cerimônia que viemos assistir, a Aarti. Na foto acima, a escadaria que leva ao rio. Essa cabra ficou tranquilamente assistindo ao culto. Quando fomos embora, ainda estava lá.


Do lado direito da escadaria, a visão trágica de muitos leprosos em estado avançado, pedindo esmolas. É terrivel de se ver, porque a hanseníase hoje é uma doença perfeitamente curável, e não exige sequer isolamento. Mas aqui ela continua exposta em sua versão bíblica.

Pode-se ver o culto das margens ou de um barco, como esse que vemos na foto abaixo.

Debaixo de cada um dessas espécies de guarda-sol iluminados, fica um monge. São sete ao todo. Eles cantam mantras e queimam incensos. A cerimônia acontece todos os dias, mesmo quando as chuvas violentas das monções fazem transbordar as águas do Ganges.


Terminada a cerimônia, fomos de canoa ver os crematórios, que ficam logo mais adiante. As fogueiras são feitas bem na margem do rio, enquanto os corpos esperam, amarrados numa numa espécie de maca, postos na escadaria: mulheres envoltas em panos vermelhos debruados de dourado. Os santos e as crianças em panos brancos, os velhos em panos muito coloridos, simbolizando que já viram todas as cores da vida.

Só não se cremam os homens santos - porque já estão libertos da samsara. As crianças - porque é preciso que reencarnem para viver (todo o ser deve passar pela vida), e os leprosos -porque já sofreram demais, e isso os liberta.

O ritual da morte é dirigido pelo filho mais velho, que está vestido de branco, com o doti, aquela roupa usada pelo Gandhi. Em sinal de luto, ele traz a cabeça raspada. Os outros familiares vestem roupas comuns, e só os homens assistem à cerimônia.

Ao filho mais velho cabe acender a fogueira onde o corpo foi colocado. Ele dá sete voltas em torno, com a tocha na mão, e acende o fogo. Depois que o corpo estiver consumido, ele atira ao Ganges as cinzas de seu pai ou de sua mãe.

Confesso a vocês que nós chegamos ali achando que íamos encontrar uma energia muito pesada, dificil de suportar. Mas não é nada disso. O hinduísmo encara a morte como um fenômeno natural da vida. E como diz um de seus textos sagrados:

"O verdadeiro Ser vive sempre. Assim como a alma incorporada experimenta infância, maturidade e velhice dentro do mesmo corpo, assim passa também de corpo a corpo - sabem os iluminados e não se entristecem"

Toda a cerimônia fúnebre está impregnada desta crença.

3 comentários:

Renato disse...

Esclarecedor o texto, Glória!
Aliás, cada postagem sua contando um pouco do seu trabalho de pesquisa em campo tem sido uma viagem à distância, tal o modo lúcido e claro como você conta o que tem visto por aí.

Sucesso - e torço para que chegue logo janeiro de 2009!

Renato

Ricardo Zanon disse...

Glória, que emocionante poder assistir a um ritual de cremação no sagrado rio ganges. Eu posso imaginar a áurea que paira no lugar durante estas cerimônias funebres. Um grande beijo e boa viagem de volta!

ana disse...

Oi Gloria,
Espero que vc esteja fazendo uma otima viagem !:)
Q interessante isso... eh uma cultura diferentesima...nunca imaginei q esse tipo de coisas de fato acontecesse em lugar algum !!
Beijos enormes e continue aproveitado,
Ana.